Nordeste tem o que o mundo quer, mas ainda exporta pouco valor

Região concentra 83% da geração solar e eólica do país e R$ 11 bi em minerais críticos, mas mantém 9% dos empregos na indústria e pauta exportadora estagnada desde 2012

Por Paulo Goethe

O Nordeste concentra 83% da geração solar e eólica nacional, respondendo por 68% de toda a nova capacidade instalada em renováveis no país em 2024 e por 36,3% da expansão nacional em 2025, segundo o Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração (Ralie) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), enquanto apenas 9% dos empregos regionais estão na indústria, segundo levantamento da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

A distância entre a abundância energética e a baixa densidade industrial representa o desafio do Nordeste diante do maior ciclo de reorganização das cadeias produtivas globais desde a pandemia, acelerado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, pelo conflito na Ucrânia e pela pressão europeia por autonomia em minerais críticos.

Pesquisa do Capgemini Research Institute, realizada em janeiro de 2025 com 1.401 executivos de organizações com receita acima de US$ 1 bilhão nos Estados Unidos e Europa, indica que dois terços das organizações têm estratégia de reindustrialização ativa ou em andamento, contra 59% em 2024. O estudo aponta que 56% já investiram em nearshoring (relocalização da produção para países próximos ao mercado consumidor) ou reshoring (retorno da manufatura ao país de origem), alta em relação aos 42% de 2024, e que 73% preveem que a reindustrialização catalisará a transição para manufatura sustentável, o que coloca a matriz energética renovável no centro da decisão locacional.

Para Maurício Laranjeira, gerente de Relações Industriais da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), o redesenho global abre espaço real para o Nordeste atrair novas indústrias, mas essa oportunidade só será aproveitada com o fortalecimento da estrutura produtiva regional, com cadeias completas, fornecedores locais e geração de empregos qualificados.

China e Europa avançam sobre ativos energéticos e minerais da região

Linha de montagem da montadora da BYD em Camaçari, que abastece mercado nacional com veículos elétricos produzidos na planta da Bahia. Foto: BYD/Divulgação

Entre 2007 e 2024, empresas chinesas confirmaram 58 projetos no Nordeste, com aportes entre R$ 11,9 bilhões e R$ 13,2 bilhões, equivalentes a 15% de todo o investimento chinês no Brasil no período, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Em 2025, o Brasil foi o maior destino global de capital chinês, com US$ 6,1 bilhões, crescimento de 45% em relação a 2024 e o maior volume desde 2017, segundo o mesmo levantamento.

A vertente industrial mais visível no Nordeste é a fábrica da BYD em Camaçari (BA), com investimento de R$ 5,5 bilhões e capacidade inicial de 150 mil veículos elétricos por ano. Na infraestrutura energética, a State Grid Brazil Holding (SGBH), subsidiária da estatal State Grid Corporation, lançou em junho de 2025 a pedra fundamental de linha de transmissão de 1.468 km entre Graça Aranha (MA) e Silvânia (GO), em corrente contínua de ultra alta tensão de 800 kV e investimento de R$ 23 bilhões, o maior projeto de transmissão da história do Brasil, destinado a resolver o gargalo de escoamento de renováveis nordestinas para o Centro-Oeste.

O interesse europeu se concentra nos minerais críticos da região. O acordo de livre comércio Mercosul-UE, ratificado pelo Senado brasileiro em março de 2026 e em aplicação provisória pela Comissão Europeia, prevê a eliminação de tarifas sobre 95% dos bens exportados pelo Mercosul para a Europa em até 12 anos, com cronograma acelerado para minerais estratégicos.

Mineração cresce mais de 400% e coloca Piauí no mapa global da exportação de ferro e níquel. Foto: Ascom Seplan

 A motivação europeia é reduzir a dependência da China, que controla até 90% do processamento global de terras raras. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) registra que o país detém 94% das reservas mundiais de nióbio, é o segundo maior detentor de grafita (26%) e concentra 23% das reservas globais de terras raras. Estimativas do Ministério das Relações Exteriores projetam aumento de 2,65% nas exportações totais brasileiras (R$ 52,1 bilhões) e crescimento de 0,76% no investimento (R$ 13,6 bilhões) como efeito do tratado.

O Nordeste já participa dessa cadeia com produção quantificada. Levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene) do Banco do Nordeste (BNB), com base em dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), apurou R$ 11 bilhões em produção de minerais críticos e estratégicos na região em 2024, incluindo níquel, cobre, silício, titânio e vanádio, insumos essenciais para baterias de íon-lítio, turbinas eólicas e painéis solares.

Entre 2019 e 2023, foram investidos R$ 1,8 bilhão em pesquisas de novas jazidas na área de atuação do BNB, com 406 concessões de lavra ativas em 194 empresas e 25.037 alvarás de pesquisa válidos até agosto de 2025, concentrados no Semiárido e no Vale do Jequitinhonha. O próprio estudo do Etene registra o risco estrutural: a cadeia de refino de terras raras segue 90% concentrada na China, e sem política industrial ativa o acordo Mercosul-UE pode consolidar o papel exportador de matéria-prima bruta do Nordeste sem avançar nas etapas de beneficiamento de maior valor.

Portos nordestinos e a conversão da geografia em competitividade

Os portos da região movimentaram 150,5 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025, com alta de 3,22% nas exportações e 3,27% nas importações, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). O Complexo Industrial Portuário de Suape (PE) encerrou 2024 com 24,8 milhões de toneladas, segundo melhor resultado em 46 anos de operação e crescimento de 3,6%, com recorde no segmento de contêineres: 646.804 TEUs, alta de 23,4% em relação a 2023.

No hub automotivo, Suape movimentou 83.992 veículos em 2025, novo recorde histórico, com 74.436 unidades exportadas, crescimento de 20%, e participação de 18,23% de todas as exportações automotivas brasileiras no período, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Porto de Suape respondeu por 18,23% de todas as exportações automotivas brasileiras em 2025 e lidera movimentação de contêineres no Nordeste. Foto: Complexo de Suape/Divulgação

O volume total, porém, ainda é distante do Porto de Santos (SP), que movimentou 142,8 milhões de toneladas em 2025. A Antaq autorizou em dezembro de 2025 a licitação do Terminal de Veículos SUA 01, com R$ 4,6 milhões previstos para modernização e ampliação da capacidade operacional. Laranjeira, da Fiepe, defende que Suape não deve ser tratado apenas como estrutura de exportação, mas como plataforma de neoindustrialização, condição que exige previsibilidade regulatória e integração logística para atrair investimentos industriais de longo prazo.

Estrutura exportadora estagnada e vulnerabilidade ao protecionismo

O Nordeste encerrou 2025 com US$ 24,8 bilhões em exportações, o maior valor em três anos, segundo levantamento da Sudene com base no Comex Stat do MDIC. As 995 empresas médias e grandes exportadoras da região representam apenas 9,2% das 10.846 firmas desse porte no Sudeste, segundo o Relatório Anual de Comércio Exterior por Porte de Empresas do MDIC, e a participação do Nordeste na base exportadora nacional de médias e grandes empresas permanece estável em 8,2% desde 2012, sem trajetória de convergência com Sul e Sudeste.

A Sudene registra que o déficit do comércio exterior nordestino caiu de R$ 10 bilhões para R$ 3 bilhões na última década, mas que a diversificação da pauta permanece limitada e concentrada em Bahia, Pernambuco, Ceará e Maranhão. A autarquia defende o adensamento das cadeias produtivas regionais articulado à Nova Indústria Brasil (NIB) e a ampliação do crédito produtivo como condições para elevar a participação da indústria no emprego e na renda regionais.

O Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), em texto assinado pelo pesquisador Flávio Ataliba, identificou que cinco dos dez estados brasileiros mais vulneráveis ao tarifaço norte-americano de 2025 estão no Nordeste. Embora os EUA representem apenas 11,1% das exportações nordestinas, o impacto é desproporcional porque as cadeias afetadas, mel do Piauí, frutas de Pernambuco e Bahia e calçados do Ceará, têm menor capacidade de redirecionamento comercial.

Obras paralisadas, travadas ou em ritmo lento

O FGV Ibre documentou a dimensão do déficit de infraestrutura subjacente: o Nordeste concentra 5.355 obras paralisadas, equivalentes a 47% do total nacional, segundo o Painel de Obras Paralisadas do TCU de abril de 2025, com cerca de R$ 12 bilhões em intervenções travadas, sendo R$ 6 bilhões de recursos federais, em saneamento, rodovias, ferrovias, mobilidade urbana, aeroportos e portos.

A Fiepe elenca infraestrutura logística insuficiente, baixa integração ferroviária, insegurança regulatória e déficit de mão de obra especializada como os principais obstáculos à competitividade industrial em escala internacional.

A energia renovável, em que o Nordeste registrou excedente de 152,8% da demanda do submercado em julho de 2024 segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), ainda não se traduz em adensamento industrial pela ausência de demanda qualificada para absorvê-la localmente.

Laranjeira defende que a transição energética precisa ser usada como vetor de adensamento industrial, atraindo fábricas, centros tecnológicos e novas cadeias produtivas, e não apenas como plataforma de geração para exportação.

Estrutura exportadora estagnada e vulnerabilidade ao protecionismo

O redesenho global abre espaço real para o Nordeste atrair indústria. Para Laranjeira, a região reúne os ativos necessários: energia renovável abundante, posição geográfica estratégica, polos industriais consolidados, infraestrutura portuária relevante e base industrial com capacidade de crescer em complexidade.

O que falta, na avaliação da Fiepe, é o ambiente que grandes fundos globais exigem para investir em projetos industriais de longo prazo: estabilidade regulatória, simplificação tributária, segurança jurídica e coordenação institucional entre setor produtivo, governos e investidores. “Para a indústria, previsibilidade é tão importante quanto incentivo fiscal”, afirma Laranjeira.

Gerente de Relações Industriais da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Maurício Laranjeira

Regulação de transmissão, marcos de hidrogênio verde, aproveitamento do acordo Mercosul-UE para atração de plantas de beneficiamento de minerais críticos e requalificação da força de trabalho para setores de maior intensidade tecnológica são as variáveis que definirão se o Nordeste captura ou perde o ciclo industrial em curso. A conclusão das obras paralisadas identificadas pelo FGV Ibre geraria, segundo o próprio estudo, fortes externalidades positivas sobre a rentabilidade dos investimentos produtivos e reforçaria a competitividade sistêmica da região.

Mais conteúdos...

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

O Grande Paradoxo

Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

© 2026 – Movimento Econômico